Pelo reflexo do espelho, ela podia ver a situação pela qual passava de outro ângulo; de fora. Ela vivia e assistia a si mesma vivendo ao mesmo tempo- aliás sempre teve vontade de ser público dos seus espetáculos. Mais ainda, sempre quis ter o poder de estar em dois lugares simultaneamente: atriz e platéia.
A sensação foi, no mínimo, esquisita. Uma desagradável combinação de comicidade com ironia e uma pitada de raiva. Por que se permitia pegar papéis tão fracos? Sempre desejou interpretar a vilã, a megera, a vingativa... (pausa dramática)
Ele- (acendendo um cigarro) Por que a gente faz isso?
Ela- Por que você sempre faz a mesma pergunta?
silêncio
Ela- (acendendo um cigarro) O que eu faço com você?
Ele- Me ama...
E a cena do espelho começou a incomodar, porque ela já aconteceu antes, várias outras vezes. Este roteiro é repetitivo e previsível.
Ele- Por que a gente faz isso?
Ela- (rasgando o texto) Acho que é vocação pra masoquismo. Ou necessidade de auto-afirmação, sei lá.
Ele- Não é esse o texto.
Ela- (acendendo um cigarro) Sabe o que eu vou fazer com você?
silêncio
Ela- Tô saindo...
Ele- Como assim? Vai abandonar teu papel? E se eu não conseguir alguém pra te substituir?
Ela- Exatamente. Essa é a idéia...
Ele- Dá pra você parar de dar voltas?
Ela- Tá mais do que na hora de você encarar um monólogo. Tem técnica vocal, sabe dar colorido ao texto, desenha com o corpo, propôe coisas novas... Você não precisa mais de muletas. (pausa) Nem eu.
Ele- (acendendo um cigarro) É isso mesmo o que você quer?
Ela- Por que você sempre faz a mesma pergunta?